O que a música popular brasileira pode nos ensinar sobre transtornos psiquiátricos

Se olharmos com atenção para as músicas que nos cercam, podemos perceber que muitas delas revelam os sofrimentos psíquicos dos ‘eu líricos’ que as cantam. A música popular brasileira é uma fonte poderosa de expressão emocional, que muitas vezes aborda questões profundas sobre a mente humana.
Às vezes, me pergunto: será que o compositor está vivenciando esses sentimentos? Será que a música é um projeto de catarse ou uma tentativa de se reconectar com o passado e suas próprias vivências? A curiosidade sobre o sofrimento psíquico sempre desperta reflexão, pois a dor psíquica é uma experiência universal, com a qual todos podemos nos identificar de alguma forma.
Recentemente, ouvindo Marisa Monte cantar “Pra Melhorar”, suas palavras me chamaram a atenção. Elas falam diretamente àqueles que atravessam momentos difíceis, refletindo um episódio de sofrimento psíquico, como o vivido na depressão:
"Quando você pensa
Que tá tudo errado e negativo
E que ainda vai piorar, piorar
Pra todo mundo a vida é difícil
Mas todos fazem seu sacrifício
Pra melhorar…"
Esses versos retratam uma sensação familiar a muitas pessoas que enfrentam a depressão: o predomínio do pensamento negativo, a sensação de que tudo está errado e que só tende a piorar. A depressão não se caracteriza apenas pela tristeza, ela também se manifesta pelo desgaste mental, pelos pensamentos autocríticos, pela falta de esperança e pela dificuldade em encontrar prazer nas coisas que antes davam prazer.
Esse tipo de pensamento distorcido, é uma das marcas da doença. E é por isso que muitos enfrentam o isolamento, o cansaço extremo e até o absenteísmo, afinal a energia necessária para interagir com o mundo desaparece, tornando qualquer tarefa ou relação um esforço imenso.
Na mesma música, Marisa também nos mostra a possibilidade de transformação. Em determinado momento, ela canta uma visão de esperança:
"Lá vem o sol (lá vem o sol)
Para derreter as nuvens negras
Para iluminar o fim do túnel..."
Essas palavras refletem o que a ajuda terapêutica pode representar para quem está em sofrimento: a luz que vem para dissipar as sombras da mente, renovando a visão sobre a vida e oferecendo uma nova perspectiva sobre o futuro.
Marisa continua, dizendo que essa luz traz a inspiração necessária para renovar os desejos, para fazer com que a pessoa "encha o peito e cante". E é exatamente isso que ocorre quando alguém permite que o tratamento entre em sua vida: uma oportunidade de recuperar aquilo que foi oprimido pela escuridão da depressão.
O resgate dessa inspiração do desejo é vital. O desejo nos move, nos permite fazer escolhas, nos posicionar no mundo e perseguir nossos objetivos. Ao buscarmos ajuda, conseguimos reconectar e redescobrir nossas possibilidades, recuperando nossa capacidade de, "ainda que a vida seja difícil", fazer sacrifícios para que ela melhore.
Complexo, não é? Mas preservar a complexidade da mente humana é um dos caminhos para a saúde mental.
Foi incrível como a música retratou com verossimilhança o que vivemos emocionalmente. Só quem está bem mentalmente possui resiliência e capacidade de se adaptar às adversidades da vida.
Cuidar da saúde mental é cuidar dessa complexidade humana.




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